sexta-feira, maio 12, 2006

CRACHÁ


Arquimedes era um cara bonito e, apesar do nome, fazia sucesso com as garotas. Mas isso não tem nada a ver com a história.

Depois de um dia de surpresas boas, o vendedor, recém promovido a gerente, (era tudo que ele queria e a notícia lhe foi dada com cuidado, ele tinha o coração fraco), volta do trabalho, quando o ônibus que ele toma é surpreendido por assaltantes. Eram dois e armados. Eles só queriam levar a grana da moça, não iriam roubar mais ninguém, então se todos ficassem quietos, nada aconteceria.


Ele estava sentado em um dos assentos que ficam no fundo do ônibus, de frente para o cobrador e então percebe que, na euforia do momento, esquecera de tirar o crachá, mas deixa onde está. Havia mais passageiros lá atrás. A primeira coisa que lhe ocorre no momento é esconder seu celular, nem tanto pelo valor dele, pois hoje em dia até o entregador de jornal tem, mas pelo que estava guardado. Arquimedes retira, em fração de segundos, o celular do bolso e enfia dentro das calças, dentro da cueca mesmo e continua a observar o que acontece lá na frente. Não dava pra ver direito, o cobrador atrapalhava sua visão. Mas dava pra perceber que os mal-feitores apontavam suas armas para os demais passageiros e mandavam ficarem calados. Algumas mulheres choravam, o cobrador nem se mexia e o motorista cumpria seu papel de dirigir. Um menino que estava ao seu lado toda hora repetia que eles estavam vindo na sua direção. Mas eles estavam é demorando muito, será que não poderiam adiantar esse assalto? Queria ir para casa logo. É que ele havia entrado em uma dessas promoções, que as empresas de telefonia celular fazem de vez em quando, e havia ganhado duas passagens, com hospedagem incluída, pra assistir ao show de seu grande ídolo, Roberto Carlos, no Rio de Janeiro. E precisava contar à sua esposa.


A moça finalmente entrega seu dinheiro, coitada, tinha o nome sujo na praça e iria comprar a passagem de sua mãe para o Rio de Janeiro com dinheiro vivo e teve que entregar, aos prantos, para esses pilantras miseráveis. Ela tinha trabalhado meses pra juntar aquela quantia, sua mãe também era fã do Rei, pra ter que dar “de bandeja” assim. Os dois meliantes mandam o motorista parar o carro e descem em um terreno baldio. Então, ouve-se um tiro. Arquimedes ainda aguardava ansioso a chegada deles na parte traseira do ônibus, quando os viu do lado de fora. Não entende nada por segundos, mas então percebe que havia, finalmente, terminado. É quando se dá conta que todas as pessoas que estavam no fundão, também haviam escondido seus celulares e relógios dentro das calças e sente vontade de rir. Mas o momento não era pra risadas e sim pra consolos. Ele tenta tirar seu celular das calças pra olhar as horas, mas não consegue, tinha descido tanto que só tirando a roupa toda. Deixa pra lá e tenta se acalmar até chegar seu ponto. Volta a pensar no prêmio que ganhara e na cara de sua mulher quando ficasse sabendo. Pensa também na moça que não iria mais levar sua mãe ao show. Finalmente salta e caminha pra casa, ouve ainda alguém gritar de dentro do coletivo, mas chove forte e ele precisa correr pra não se encharcar ou pegar um resfriado. Tropeça em alguma coisa, mas não pode perder tempo, nada iria atrapalhar sua viagem à cidade maravilhosa.


Chega em casa todo molhado e conta a esposa tudo que acontecera naquele dia, o prêmio, o assalto, a chuva. Mal prestava atenção nela. O prêmio!!! O celular??? Tira a roupa pra pegar o celular, pois precisava ligar confirmando seus dados e passando a senha que estava nele, ainda hoje. A mulher parece meio desligada, mas ele está tão ansioso que não presta atenção. Cadê o celular? Lembra que tropeçara em alguma coisa e não dera importância. Volta correndo, procurando, mas nada. Não acha. Pensa na esposa, na moça, nos ladrões, no Roberto Carlos. Se não tivesse tentado esconder o celular? Se não estivesse chovendo tanto? Se não tivesse corrido?


Quando volta encontra o ônibus parado no mesmo lugar onde ele desceu. Ele entra pra procurar o celular, já que os bandidos tinham ido embora. Arquimedes finalmente encontra seu celular com o menino que estava sentado ao seu lado e imediatamente pensa em brigar com ele, quando tropeça em alguém que parece muito ferido caído no chão. Alguém com um crachá escrito Arquimedes.

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