sábado, maio 13, 2006

Classe Média

Esta é uma história exemplar, só não está muito claro qual é o exemplo. De qualquer jeito, mantenha-a longe das crianças. Também não tem nada a ver com a crise brasileira, o apartheid, a situação na América Central ou no Oriente Médio ou a grande aventura do homem sobre a Terra. Situa-se no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média. Enfim. Aconteceu com um amigo meu. Fictício, claro. Após o jantar. Onde fecharam um grande e lucrativo negócio, comemorado com muito uísque. Ele discutia com o sócio, dentre outras coisas, quem pagaria a conta lá no japonês. Resolvem rachar. E a proposta é feita.

Meu Amigo: - Não! Vou nada rapaz!
Amigo Dele: - Por que não?
M.A.: - Porque não.
A.D.: - Deixe de ser teimoso cara!
M.A.: - Não vou. Ta pensando que sou o quê?
A.D.: - Então ta bom. Não quer ir não vá. Não vou insistir.
M.A.: - Beleza!
A.D.: - Te pago uma dose, vai?
M.A.: - Não.
A.D.: - Uma garrafa!?
M.A.: - Não vou. Desista!
A.D.: - Por que não?
M.A.: - Já disse o porquê.
A.D.: - Não disse não. Só disse que não ia e pronto.
M.A.: - E não vou mesmo. Como é que você tem coragem de me fazer uma proposta dessas?
A.D.: - É um pedido desesperado! De um amigo!
M.A.: - Ta começando a apelar!
A.D.: - Nunca te pedi nada antes! Vai cara!
M.A.: - Pára com isso rapaz! Deu pra fazer chantagem emocional agora foi?
A.D.: - Por favor!
M.A.: - Que diferença faz se eu for?
A.D.: - Ahhh! Então você vai?
M.A.: - Não. Só quero saber por que você quer tanto que eu vá?
A.D.: - Eu já disse... É meio estranho, quer dizer... É minha primeira vez!
M.A.: - Hahaha! Fala sério? Deixe de besteira rapaz! Não vai morrer por isso.
A.D.: - O que foi? Vai me sacanear agora é? Se não quer ir não vá, mas não precisa sacanear.
M.A.: - Não cara! Não to sacaneando não... Hiiii! Ok! Você venceu!
A.D.: - Ok? Isso quer dizer que você vai?
M.A.: - Vou, pronto! Conseguiu! Eu vou com você.
A.D.: - Ok. Ta combinado. Nessa quinta-feira! Mas não vai contar pra ninguém!
M.A.: - Ok.
A.D.: - Hum! Pra falar a verdade, acho melhor eu ir sozinho.
M.A.: - Como? Você me convence a ir e agora quer ir sozinho? Nada disso, agora eu vou.
A.D.: - Não, tudo bem! É melhor você não ir mesmo. Eu vou sozinho. Acho que pegaria mal!
M.A.: - Ahhh! Agora eu vou sim. Depois de toda essa presepada!
A.D.: - Presepada? Você chama isso de presepada? Agora sou eu que não quer que você vá.
M.A.: - Que é isso rapaz?! Amigo é pra essas coisas! Vou sim.
A.D.: - É melhor não. Eu vou sozinho. Não quero que você pague mico lá.
M.A.: - Você que sabe! Se é isso mesmo que você quer? Vá lá!
A.D.: - É! Mas... Se você fosse junto seria menos constrangedor pra mim...
M.A.: - Ahhh cara! Bom! Se quiser esperar até semana que vem...
A.D.: - Semana que vem? Por quê?
M.A.: - É. É que... Bom... Acho melhor contar logo já que eu não sou o único...
A.D.: - Contar o que cara?
M.A.: - É que eu liguei ontem pra esse salão e marquei hora pra semana que vem.

sexta-feira, maio 12, 2006

CRACHÁ


Arquimedes era um cara bonito e, apesar do nome, fazia sucesso com as garotas. Mas isso não tem nada a ver com a história.

Depois de um dia de surpresas boas, o vendedor, recém promovido a gerente, (era tudo que ele queria e a notícia lhe foi dada com cuidado, ele tinha o coração fraco), volta do trabalho, quando o ônibus que ele toma é surpreendido por assaltantes. Eram dois e armados. Eles só queriam levar a grana da moça, não iriam roubar mais ninguém, então se todos ficassem quietos, nada aconteceria.


Ele estava sentado em um dos assentos que ficam no fundo do ônibus, de frente para o cobrador e então percebe que, na euforia do momento, esquecera de tirar o crachá, mas deixa onde está. Havia mais passageiros lá atrás. A primeira coisa que lhe ocorre no momento é esconder seu celular, nem tanto pelo valor dele, pois hoje em dia até o entregador de jornal tem, mas pelo que estava guardado. Arquimedes retira, em fração de segundos, o celular do bolso e enfia dentro das calças, dentro da cueca mesmo e continua a observar o que acontece lá na frente. Não dava pra ver direito, o cobrador atrapalhava sua visão. Mas dava pra perceber que os mal-feitores apontavam suas armas para os demais passageiros e mandavam ficarem calados. Algumas mulheres choravam, o cobrador nem se mexia e o motorista cumpria seu papel de dirigir. Um menino que estava ao seu lado toda hora repetia que eles estavam vindo na sua direção. Mas eles estavam é demorando muito, será que não poderiam adiantar esse assalto? Queria ir para casa logo. É que ele havia entrado em uma dessas promoções, que as empresas de telefonia celular fazem de vez em quando, e havia ganhado duas passagens, com hospedagem incluída, pra assistir ao show de seu grande ídolo, Roberto Carlos, no Rio de Janeiro. E precisava contar à sua esposa.


A moça finalmente entrega seu dinheiro, coitada, tinha o nome sujo na praça e iria comprar a passagem de sua mãe para o Rio de Janeiro com dinheiro vivo e teve que entregar, aos prantos, para esses pilantras miseráveis. Ela tinha trabalhado meses pra juntar aquela quantia, sua mãe também era fã do Rei, pra ter que dar “de bandeja” assim. Os dois meliantes mandam o motorista parar o carro e descem em um terreno baldio. Então, ouve-se um tiro. Arquimedes ainda aguardava ansioso a chegada deles na parte traseira do ônibus, quando os viu do lado de fora. Não entende nada por segundos, mas então percebe que havia, finalmente, terminado. É quando se dá conta que todas as pessoas que estavam no fundão, também haviam escondido seus celulares e relógios dentro das calças e sente vontade de rir. Mas o momento não era pra risadas e sim pra consolos. Ele tenta tirar seu celular das calças pra olhar as horas, mas não consegue, tinha descido tanto que só tirando a roupa toda. Deixa pra lá e tenta se acalmar até chegar seu ponto. Volta a pensar no prêmio que ganhara e na cara de sua mulher quando ficasse sabendo. Pensa também na moça que não iria mais levar sua mãe ao show. Finalmente salta e caminha pra casa, ouve ainda alguém gritar de dentro do coletivo, mas chove forte e ele precisa correr pra não se encharcar ou pegar um resfriado. Tropeça em alguma coisa, mas não pode perder tempo, nada iria atrapalhar sua viagem à cidade maravilhosa.


Chega em casa todo molhado e conta a esposa tudo que acontecera naquele dia, o prêmio, o assalto, a chuva. Mal prestava atenção nela. O prêmio!!! O celular??? Tira a roupa pra pegar o celular, pois precisava ligar confirmando seus dados e passando a senha que estava nele, ainda hoje. A mulher parece meio desligada, mas ele está tão ansioso que não presta atenção. Cadê o celular? Lembra que tropeçara em alguma coisa e não dera importância. Volta correndo, procurando, mas nada. Não acha. Pensa na esposa, na moça, nos ladrões, no Roberto Carlos. Se não tivesse tentado esconder o celular? Se não estivesse chovendo tanto? Se não tivesse corrido?


Quando volta encontra o ônibus parado no mesmo lugar onde ele desceu. Ele entra pra procurar o celular, já que os bandidos tinham ido embora. Arquimedes finalmente encontra seu celular com o menino que estava sentado ao seu lado e imediatamente pensa em brigar com ele, quando tropeça em alguém que parece muito ferido caído no chão. Alguém com um crachá escrito Arquimedes.