quinta-feira, dezembro 15, 2011

Intermitente


Fica ali, parada, olhando, pensando, lembrando, gosta de admirar as luzinhas piscarem, encantam-na, mas de uma maneira infantil, pura, genuína.  É uma daquelas coisas que te fazem bem e pronto, um bem intermitente, como as luzinhas piscando. É assim todo ano na época do natal, ela adora. Gosta de enfeitar a casa, de armar a árvore com muitas bolas coloridas, presentes e luzes, muitas luzes piscando sem parar. Não acredita em nada que norteia o natal, não é por isso que gosta, mas porque lembra sua infância.

Nos dias que antecediam o natal, sua família ficava mais próxima. Todos precisavam se reunir e programar a festa, os presentes, a árvore, e era algo que faziam juntos. Nunca acreditou em Papai Noel, não cabia esse tipo de coisa nas suas crenças infantis, já que não eram lá muito favorecidos economicamente, então as coisas eram feitas de uma forma diferente da que vemos nos filmes. Pra começar, a árvore não era comprada, nem os enfeites. Era uma tarefa dos homens a de encontrar um bom galho para transformar em árvore de natal, tinha que ser um galho seco, grande e com muitas ramificações. Enquanto o galho não era trazido, os enfeites eram fabricados em casa, eram caixas de fósforos, de sapatos, de remédios e de todo tipo ou formato, que seriam embaladas com papel colorido e encheriam a árvore e o cantinho dos presentes. Eles guardavam, durante o ano todo, embalagens que pudessem servir, como pacotes vazios de café, lacres de latas de leite ou chocolate em pó, fitas e papéis de presentes de outras ocasiões e outras coisas. Tornavam-se bons enfeites, com um pouco de criatividade.

Quando finalmente conseguiam o galho ideal, traziam para ser preparado. Este era cuidadosamente envolto em algodão, a neve, e pendurado de cabeça pra baixo no teto por um fio, era ali que começaria a se tornar uma árvore de verdade. Não havia luzinhas piscando, não que se lembre. Ela estava sempre querendo participar da arrumação, mas era incumbida de cuidar dos menores, o que não a impedia de bisbilhotar. Depois começava a fase dos comes e bebes. Era tudo feito por todos, sempre. Cada um tinha sua especialidade. Ela gostava muito de uma espécie de sanduíche feito em formato de rocambole, enrolado em papel celofane colorido, à medida que ia comendo, ia desenrolando. No dia da véspera, acordava sempre bem cedo, ansiosa, a casa cheia, os adultos cozinhando, preparando a mesa, dando os últimos retoques, conversando e gargalhando. As crianças tinham poucas preocupações, sua tarefa era brincar e esperar a chegada da noite, onde ganhariam presentes, comeriam guloseimas e brincariam mais. Sabiam que não seriam grandes presentes ou muitos e que os mais novos ganhariam mais, porém, não se importavam. Quando a noite chegava, a mesa posta, o cantinho dos presentes cheio (dos verdadeiros e dos falsos), a árvore lá no alto, linda e imponente, a família toda reunida em volta, rindo muito, contando piadas, comendo, bebendo, tirando fotos, trocando presentes... Era natal! Era como se fosse o melhor natal do mundo! Parece pieguice, mas ela era criança e aqueles foram os melhores natais que tivera.

Eles não tinham luzinhas piscando, não tinham peru, presentes caros, ou uma pomposa guirlanda pendurada na porta, ou árvores compradas em lojas, bolas coloridas reluzentes, ou uma grande estrela brilhante no alto da árvore. Nada disso fazia falta a nenhum deles. E podemos nos perguntar qual o real significado de tudo isso? Todos esses preparativos para apenas uma determinada noite do ano? O que significa essa noite? Para os religiosos, essa data é a celebração do nascimento de Cristo, os pagãos comemoram o solstício de inverno, para muitos é só um motivo para festejar, para eles talvez fosse apenas um ritual, mas para ela era o natal, daqueles que nós vemos nos filmes.

quinta-feira, setembro 08, 2011

Merengue


A vida nos endurece, nos torna rígidos em sentimentos, preceitos, decisões e atitudes, nos faz pessimistas. A vida nos amolece, nos torna sensíveis, carentes, condescendentes e otimistas. A vida pode nos tornar muitas coisas, boas ou ruins, grandiosas ou medíocres, pessoas fortes ou fracas, ignorantes ou sábias. Tudo depende do que aprendemos com nossas vitórias e derrotas ou do que deixamos de aprender.

Aprendi a seguir em frente sempre. E que as pessoas vão caminhar com você enquanto puderem, mas se isso as atrasar, elas o deixarão para trás e terão uma boa desculpa pra isso. E não estão erradas, supere! Aprendi a desconfiar do caráter de alguém que não gosta de animais ou crianças, certamente, há algo de errado. Aprendi a não ir ao supermercado com fome, gasta-se o dobro. A não guardar mágoas ou alimentar desavenças, é burrice, perda de tempo e ninguém liga. Aprendi que passar uma tarde inteira fazendo merengue com meu avô pra depois me lambuzar até enjoar pode ser maravilhoso, engorda, mas e daí? Que você não deve permitir que ninguém te magoe, não importa o motivo, a decisão é sua. Que comprar pela internet é prático, mas pode ser bem irritante quando dá problema. Que não é errado se apaixonar, confiar, demonstrar, enlouquecer, o errado é não sentir nada. Que datas comemorativas foram criadas pelo comércio para dar lucro, mas são boas. Aprendi que fazer a coisa certa é gratificante, mas fazer coisas erradas pode ser bem empolgante. Que ser impulsiva pode me trazer muitos dissabores, mas que os sabores que experimento tornam meu paladar mais aguçado. Que a maioria das nossas queixas de hoje serão as saudades de amanhã. Que uma pia entupida pode causar mais transtornos do que se imagina. Que um texto nunca estará terminado, não o suficiente para quem o escreveu, como esse, por exemplo. Que temos que encontrar nosso lugar no mundo e que não podemos querer ser mais e nem menos do que nos cabe. Que caviar é ruim, apesar de bonito. Que maniçoba é uma delícia, apesar de feia. Que passar necessidade é f***, mas a saudade pode ser devastadora. Que animais de estimação e amigos são uma verdadeira terapia. Que dinheiro não traz felicidade... Pra quem já não era feliz. Que posso passar horas apenas ouvindo minhas músicas preferidas. Que dançar também é uma terapia, dançar compulsivamente. E rir, rir muito. E que chorar é preciso quando se está triste, com a alma dilacerada, é extremamente necessário chorar, copiosamente, feito criança, é a melhor maneira de desabafar e sarar seja o que for.

Aprendi com minha família, meus amigos, meus namorados, chefes, colegas, subordinados, vizinhos, professores, conhecidos, desconhecidos. Com livros, revistas, filosofia barata, jornais, gibis, Internet, cinema, programas de televisão, bulas de remédio, manuais de instruções, publicidade. Com a vida. Comigo. Com a morte. A vida nos amolece, nos endurece, na verdade nos torna flexíveis. Algumas dessas coisas eu aprendi cedo demais, outras tarde demais, outras não apreendi direito e preciso carregar uma ‘cola’ pra não esquecer. A vida não nos maltrata, ela nos ensina.

terça-feira, julho 19, 2011

Rede-socialização real...


Redes sociais! Ah, meus amigos, as redes sociais vieram com tudo. Todos, hoje em dia, fazem parte de algum tipo de rede social, ou quase todos. Elas chegaram pra viciar, preencher lacunas, distrair, aproximar, afastar, servem como um verdadeiro mostruário das vidas alheias, das alegrias, tristezas, vitórias, derrotas, agem como entretenimento para uns, necessidade para outros, mas têm sempre um motivo de ser. Não vou falar sobre o que eu penso delas, mas do que venho observando dos usuários enquanto passeio por algumas.

Há os que estão sempre alegres e saltitantes, esbanjando felicidade. Existe uma alegria exacerbada nessas redes sociais, onde fala-se muito sobre ser e estar feliz, como foi maravilhoso aquele final de semana, como está sendo fantástica a experiência de mudar de vida, como é espetacular estar apaixonado. Ok, coisas boas acontecem a todos nós, mas ninguém é feliz o tempo todo. Em contrapartida, vejo os tristes e esquecidos pelo mundo, os pobres coitados que sofrem por amor mais que Julieta por Romeu, que trabalham mais que Noé na construção da arca e ganham menos que os Carmelitas Descalços. Eles estão sempre repetindo, por meio de aforismos pra enfeitar, o quão são castigados pela vida, sofredores, verdadeiros peregrinos da desilusão. Ora, também não se é triste em tempo integral. Não podemos esquecer dos usuários esporádicos, aqueles que são muito ocupados ou apenas desprendidos desse tipo de coisa. Uns entram apenas pra cumprimentar a rede social: “Bom dia, Rede Social”,  e avisam que estão apenas de passagem. Outros dão as caras pra informar, literalmente, onde estão ou o que estão fazendo, (se estiverem fazendo algo de bom, é claro). Podemos falar daqueles que gostam de relatar tudo o que fazem o tempo todo, a cada flash, um post, “Acabei de acordar”, “Estou saindo da cama”, “Entrei no banheiro...”. E não estou exagerando. E os fofoqueiros? Esses estão ali única e exclusivamente pra ficar sabendo da vida dos outros, não postam nada, não falam com ninguém, vez ou outra tecem um comentário em uma foto que você publicou ano passado, (e eles encontram a foto porque ficam futucando seu perfil). Pois é, será que tudo isso é meramente virtual?

Têm também os baladeiros, sempre postando fotos de festas; os apaixonados, com mil declarações de amor; os desocupados, que postam o tempo todo (tudo que encontram na Internet) e comentam tudo de todo mundo; os trabalhadores, que postam apenas assuntos referentes ao ofício; os egoístas, que postam sempre, mas nunca comentam ou respondem o post alheio; os curiosos, que entram só pra ver como é e depois abandonam o perfil; os catequizadores; os pais, tios e padrinhos babões; os estressados, que usam o espaço pra desabafar ou esbravejar. Alguns usam pra conhecer pessoas, paquerar, outros até pra vigiar.

Há todo tipo de perfil nas redes sociais, todos se encontram, se completam, interagem, reencontram, discutem assuntos importantes, problemas, besteiras, riem, contam segredos, lançam indiretas, divagam, filosofam e, o mais importante, socializam. Calma, não estou criticando as redes sociais ou seus frequentadores, até porque sou uma e já pratiquei grande parte do que foi citado acima. Mas é que é assim mesmo, são os novos tempos, as novas maneiras de interagir, abracemos as novas tecnologias e utilizemo-nas! Só tomemos cuidado pra não tornarmos essa, a única forma de socialização.

sábado, abril 09, 2011

Engarrafa Mentes

Nunca havia discorrido sobre engarrafamentos. Não sei por que, é algo tão presente o tempo todo, talvez por isso mesmo. Mas como é inconveniente, merece ser “mal” dito. Primeiro, entendamos o motivo de eles ocorrerem. Um engarrafamento pode desencadear por vários fatores, poderia ser um acidente, uma sinaleira com defeito, uma passeata, uma festa de largo, um grande evento nas proximidades, uma briga no trânsito, ruas estreitas, chuva etc. Mas, sempre que houvesse uma explicação, ele seria aceitável, concordam? Atrapalha, incomoda, atrasa, irrita, mas há como aceitar por que houve um estopim, houve uma causa, um porquê. Agora, e quando não há motivo? Quando você fica parado por três, quatro, cinco horas em uma droga de um engarrafamento, perde o seu compromisso e nem fica sabendo por que perdeu? Aí é de matar. Mas acontece.

Vamos ao ponto de ônibus, espera-se cerca de 30 a 40 minutos o bus chegar, com as pernas e pés encharcados da chuva (sim, está chovendo), pois o ponto mais próximo não tem cobertura e os guarda-chuvas não “guardam” direito. Ele chega, você entra e o trânsito flui normalmente até que aparece, do nada, uma fileira imensa de carros, ônibus, motos entrecortando a fila e afins. Um belo e comprido engarrafamento pra embelezar mais ainda esse dia. O que fazer nesses momentos? Rezar pra acabar logo? Huuummm... Não. Xingar o motorista? Ofender a mãe do cobrador? Seriam passatempos relaxadores, mas socialmente incorretos e não se pode deixar que pequenas coisas nos tirem do sério. Você pensa no que o terá causado e começa a procurar pistas.

Logo começa a temporada de “vendas” dentro do 'buzão'. Entra o cara do Manassés, o baleiro, o vendedor de “cheirinho”, o de canetas, o de picolés, aquele que só pede, aquele que canta pra ganhar algum e ainda vende o CD, o palhaço que ajuda uma casa de caridade, o menino do incenso, o do bombom, das canetas com calendário, do chaveiro, do massageador de cabeça etc. E compre, viu? Dá pra fazer cara de “mau-humor” também que eles não te abordam. E o engarrafamento lá, imponente, todo seguro de si, mas você ainda vai descobrir o motivo. Então você começa a prestar atenção nas conversas alheias, não tem nada pra fazer mesmo, são reveladoras, engraçadas, escabrosas, vixe! Melhor pensar na vida, nas contas, nos quilinhos a mais, nos chifres, naquele vizinho que acabou de se mudar, no que terá para o almoço, pensar em como seu corpo está doendo de ficar em pé se segurando com um braço só e sendo espremido pela superpopulação do coletivo ou em como você tem que se esquivar de todos os homens que passam atrás, pra não ser bolinada. O engarrafamento, por sua vez, não dá trégua, ele te castiga, te mostra quem realmente manda e você atento, vai descobrir sua origem. Hora de concentrar-se na rua, no movimento, na bela paisagem, nos motoristas buzinando e ofendendo uns aos outros porque estão atrasados, nos pedestres que atravessam correndo na frente dos carros, no pivete “bafando” a bolsa da senhora e saindo correndo. Outra opção é jogar, ouvir música ou falar com alguém ao celular e torcer pra que ninguém te roube. Poderia até dar uma cochilada se estivesse sentado pra não precisar sentir o cheirinho de 60 pessoas enclausuradas em um ônibus todo fechado por causa da chuva.

Todas essas coisas podem ser feitas pra esperar o engarrafamento esnobe, insuportável e irritante acabar e, finalmente, desvendar seu mistério, suas raízes. Mas ele continua no comando, ele veio, te infernizou o dia e foi embora quando bem quis, sem você perceber. As pessoas vão chegando aos seus destinos, você chega ao trabalho estressado e com aquela dúvida que não lhe sai da cabeça, por que carga d’água esse engarrafamento começou? Ô inferno!!! E se promete: Ahhh, mas amanhã eu descubro!!!

terça-feira, setembro 07, 2010

Etc e tal...

Há muito que falar sobre ela. Sobre a vida. Sobre como devemos aproveitá-la, o que devemos fazer, como viver, blá blá blá etc e tal. Todos estão sempre argumentando sobre isso, parece um mantra. Sabe aquelas mensagens de motivação que recebemos todos os dias? Sim, porque eu recebo todos os dias, sempre dizendo as mesmas coisas e como é importante isso ou aquilo, enfim, pieguices de auto-ajuda que, às vezes (só às vezes), se fazem necessárias. No entanto, há uma coisa que consegue definir tudo isso, tudo que deveríamos e não deveríamos fazer. E não me refiro à moral e bons costumes.
Não deveríamos fugir, não deveríamos esconder, reprimir, omitir, silenciar, prorrogar ou guardar o que não serve ou não temos mais espaço, ou seja, não deveríamos esperar. Esperar por alguma coisa, por nada, por ninguém. Por que temos mania de deixar as coisas pra depois? O que nos faz pensar que teremos tempo? Por que insistimos em sermos otimistas? O otimismo é bom até certo ponto, mas só enquanto não nos paralisa, se passar disso, vira comodismo. Esse tipo de pensamento age como um mecanismo de defesa, onde tudo aquilo que nos faz sofrer é eufemismado. E funciona, é como se tomássemos um calmante ou fôssemos acarinhados quando pensamos positivamente, faz parecer que tudo que está acontecendo é um terrível pesadelo e que logo acordaremos. Ser otimista em demasia nos leva a crer que tudo vai dar certo e que nada pode sair diferente daquilo que projetamos como real e concreto, que “Happy End” não acontece apenas nos filmes e novelas e que Papai Noel e Coelhinho da Páscoa existem.
Ora, acordemos! Não existem! Devemos nos preparar para o que está por vir, ainda que seja o pior. É cômodo empurrar com a barriga, é reconfortante achar que sempre poderemos esticar o prazo, chegar atrasados, ligar amanhã, começar na segunda, dormir mais um pouco ou acreditar que ainda não chegou a hora. Tudo para não fazermos o que devemos fazer, para não assumirmos mais um compromisso, para descansarmos mais um pouco e não enfrentarmos aquilo que nos parece poder esperar. Não pode. Não quero, com isso, estimular o pessimismo e levantar a bandeira “Abaixo o otimismo!”. Não é isso. Ainda creio que o pensamento positivo é importante e que atrai. Mas as coisas não podem esperar, nós não podemos e o tempo não pode e não vai nos esperar. Façamos, já.

quinta-feira, julho 29, 2010

Ah, o carnaval...

O carnaval encanta pela sua extravagância, por ter e manter tantas pessoas juntas durante tanto tempo, por reunir, em sete dias, gente do mundo todo em uma só cidade e por tudo ser permitido, ou quase tudo. É, também, uma festa multifacetada, na qual as pessoas seguem verdadeiros rituais, fantasiam-se, ingerem todo tipo de bebida, externam amor e ódio, pulam, dançam, correm, tomam chuva, dormem no chão, abraçam (e beijam e...) desconhecidos e retornam a sua condição primária e atávica. Definamos. São as sensações e atos que praticamos sem pensar, que apenas sentimos e simplesmente fazemos e, nesses dias específicos, elas podem. Imagine as mais libidinosas necessidades básicas, inerentes aflorando e mostrando-se diante de tanto primitivismo, tudo impregnado nesse grande show, nessa mega manifestação de desejos, secretos ou não. Naquele momento todos são iguais, não existe raça, cor ou credo que os distinga. Claro que estou falando do povo, do povão mesmo que não tem acesso a certas regalias como os mais afortunados dos camarotes. E os foliões se despencam até lá de qualquer maneira para adorar seu ídolo, vê-lo de perto e, quem sabe, tocá-lo. Por sua vez, as celebridades fazem jus a toda essa adoração, manifestando suas vontades e fazendo com que elas se cumpram pelos seus súditos afoitos e fiéis. São danças, passos ensaiados e verdadeiros gritos de guerra repetidos pela grande massa que se conglomera em torno dos trios elétricos e abaixo dos privilegiados que assistem. Sem falar nos blocos, onde a utopia desse culto ao profano atinge seu ápice e a multidão se entrega à loucura.

Penso que toda essa descrição do carnaval lembra muito a forma como viviam nossos ancestrais em suas tribos e vilarejos, civilizações que já desapareceram com o passar dos séculos, mas que estão presentes até hoje em momentos como esse. Ocorre desde a adoração de ídolos em altares, passando pelas vontades cumpridas pelos súditos e danças, rituais e devoção sagrada até as formas de caracterização dos povos, onde cada grupo pintava-se e enfeitava-se de forma diferente, utilizando adereços artesanais que muito se parecem fantasias dos carnavais contemporâneos.

Podemos dizer que o carnaval é um retorno às origens. É onde deixamos aflorar nossos instintos primários latentes e reprimidos pela sociedade moderna. É como exprimimos tudo que sentimos enquanto animais mamíferos bípedes famintos. O que desejamos fazer, mas não podemos durante o resto do ano, coibidos pela moral e preceitos da civilização que fazemos parte. Todo ser humano tem no seu âmago um pouco do que éramos na antiguidade e, inconscientemente, deseja externar esses sentimentos e sensações tão confusos e tão comuns que afloram durante o carnaval. Ele retorna à sua condição de origem e, deliberadamente, sente-se aliviado. Desprende-se de tudo que o exacerba e, assim, despeja naqueles sete dias de luxúria aquilo que carregou e internalizou durante toda sua vidinha diária civilizada, morna, politicamente correta, pacata e medíocre.

terça-feira, julho 27, 2010

Eis que surge...

9 de julho de 1977, um jovem sobe num coreto, em pleno jardim do Meyer, Rio de Janeiro e começa a falar sobre Deus, fé e fé em Deus. As pessoas se aproximam e querem ouvir o que está sendo dito por aquele rapaz tão determinado. Aquelas reuniões começam a atrair a atenção do povo, mas o jovem precisava ser ouvido por mais gente, o alcance de sua voz teria de ser maior. Então, dez de seus melhores espectadores decidem ajudar e começam colando cartazes nas proximidades, falando de seu propósito e fazendo propaganda boca-a-boca dos cultos. O coreto, então, começou a ficar pequeno para tanta gente e o nosso jovem decide que precisa de um espaço maior, que pudesse abrigar as pessoas de bem que lhe seguiam. Resolve então alugar um galpão, contra tudo e contra todos que diziam ser loucura, que não teria condições financeiras para arcar com os custos etc. O galpão enche de fiéis no primeiro dia e no segundo e cada vez mais. Surge a Igreja Universal do Reino de Deus, com o jovem Edir Macedo e seus primeiros “obreiros”, iniciando a propagação daquilo que se tornaria a maior religião neopentecostal da atualidade e a igreja que mais cresce e atrai adeptos no Brasil e no mundo. Hoje, é a principal concorrente da Igreja Católica no Brasil.

Li um tweet que dizia que a Religião é vista pelas pessoas comuns como verdadeira, pelos sábios como falsa e pelos governantes como útil.

Penso que tem sido bastante útil para mais gente...

domingo, julho 18, 2010

Desistir, questão de semântica

Penso que desistir seja sinal de coragem. É algo permanente. Permanente porque definirá um caminho a seguir. Quando se desiste de algo, perde-se tudo que poderia ter sido e nunca será. Desistir pode significar perder a sua grande oportunidade, uma promoção, a epifania, a solução do problema, um grande amor, a condução, o jogo, o vestibular, o troco ou qualquer coisa que você precise ser covarde o suficiente pra não desistir. Tomemos como exemplo as guerras. Quantas batalhas foram vencidas ou perdidas porque o exército recuou, ou seja, desistiu? Claro que o recuo foi uma estratégia militar seja para seu fortalecimento, ou porque estavam em desvantagem numérica ou bélica, ou ainda pra ter um elemento surpresa depois e o contra ataque definir a vitória, mas não deixou de ser uma desistência.

“Desistir” é uma palavra que carrega um estigma. O de algo que não pode ser feito por pessoas corajosas, perseverantes ou inteligentes. É sinônimo de fracasso. A culpa é da própria sociedade, dos nossos pais, da mídia que nos ensinam desde crianças que não podemos voltar atrás numa decisão, chamam-nos “personalidade fraca”, ou não devemos trancar uma faculdade por que não nos identificamos com o curso, daí somos “os que não sabem o que querem da vida”. Somos rotulados de fracassados, covardes, medrosos, indecisos, inseguros ou acomodados. Confesso que não gosto de desistir. Vejo-me como uma incompetente que não conseguiu aquilo que buscava. Mas fazendo um exercício de maiêutica sobre “desistir” cheguei à conclusão de que pode ser algo bom. Quantos casamentos fracassados perduram apenas porque as pessoas têm medo de desistir deles? Quantos empregos medíocres são mantidos por profissionais que têm medo de algo novo? E as pessoas que passam a vida toda presas a conceitos e preconceitos somente porque não podem desistir do que lhes ensinaram como verdade? E as religiões? Quantos que cresceram dentro de uma determinada doutrina junto com seus pais, não a deixam por medo dos buchichos? E aquele amor platônico, onde a pessoa passa anos tentando conquistar alguém que sequer sabe que ela existe? Desistir pode ser a melhor opção.

É uma questão de semântica. Se ao invés de “desistir” usássemos “mudar de idéia”, ou “retirada estratégica”, ou “respirar novos ares”, ou “seguir em frente”, ou ainda “parar de dar murro em ponta de faca”? (Essa é boa, né?). Quebraria o estigma e todos poderiam desistir sem serem massacrados. A partir de hoje, não desisto de mais nada, vou extinguir essa palavra do meu dicionário. Vou avaliar a situação e ir até onde der, até onde o braço alcançar, até perceber que a faca pode machucar minha mão. Não somos super-heróis e não podemos ter tudo que queremos, às vezes, precisamos ter coragem pra admitir que chegamos ao nosso limite, que foi o suficiente e inteligentes pra perceber que já tentamos o bastante e que se continuarmos talvez não consigamos retornar. Pode ser até que eu esteja interpretando mal a palavra, mas em alguns momentos, meu caro, é melhor “mudar o rumo”.

sábado, dezembro 08, 2007

São Joaquim da Bahia

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Sou baiana.
Morei na Bahia, praticamente, a minha vida toda. E isso quer dizer alguns anos. Mas tenho um arrependimento, algo que não tinha importância há até pouco tempo atrás, apesar dos burburinhos que me rodeavam. Uma coisa que eu não tinha vivido ou sentido e que não me fazia falta, ou eu pensava que não. Comparo à sensação de comer lambreta! À primeira vista, causa má impressão e resistimos bravamente a ela, e enquanto não criamos coragem, não fede nem cheira. Só depois que comemos, descobrimos seu aroma!


Foi assim comigo e a Feira de São Joaquim. No decorrer dos meus alguns muitos anos de vida, eu nunca havia visitado essa feira tão famosa. Confesso que me surpreendi com o que vi e presenciei. Surpresa boa.


Cheguei à feira meio ressabiada com o que encontraria e logo fui abordada por um senhor de mais ou menos 45 anos, que parecia estar acostumado com visitantes como eu, que ficavam com cara de “E agora?” quando adentravam pelas barracas e se deparavam com tanta variedade de objetos e tanta gente diferente. Eu fiquei. Não sabia para onde ir ou o que fazer, e nem o que responder ao meu breve anfitrião, que ansiava por vendas. Resolvi caminhar pelos corredores estreitos e escuros, onde a única luz que entrava era a do dia. Eram vários e todos pareciam dar no mesmo lugar. Peguei uma linha reta e só parei no final da feira, na parte de trás, estava vazio. Precisava pensar meus próximos passos. Passei por galinhas de quintal, tigelas de barro, calcinhas e cuecas de todos os tamanhos e cores, pássaros, sapatos, gente carregando bezerro e estátuas que mostravam os mínimos detalhes do corpo humano, até os mais íntimos - se é que vocês me entendem.


De repente, avistei o sol. Nos fundos da feira, há um espaço aberto e deserto, onde não passam muitas pessoas. Foi onde encontrei Dona Nira, mãe de família, dona de casa, comerciante de temperos e, segundo ela, uma mulher realizada. Enquanto enchia saquinhos plásticos com folhas de loro, conversou comigo. Falou da sua vida, da sua família, seu trabalho, da feira e de como gostava de trabalhar lá, disse que aquilo lá já tinha mudado muito desde que chegara e que já tinha visto gente de tudo quanto é parte do mundo, mas gostava mesmo era de sua gente. Eu era como ela e fazia parte da sua gente, pensei, então percebi que estava em casa.


A primeira vez que comi aquele molusco visivelmente gosmento, levei à boca contra minha vontade e não esperava gostar, já tinha até um discurso pronto pra declarar a quem me obrigava a tal tortura. Mas gostei da danada da lambreta. Tem tudo a ver comigo e com os baianos, assim como a Feira de São Joaquim. Parece que não vai prestar, mas presta. Tem tudo que se precisa e precisa de tudo que tem. Dia desses volto lá e, no caminho, paro pra uma lambretinha.

terça-feira, agosto 29, 2006

Sem mais, no momento...


“Tempo virá em que do obscuro gabinete do escritor a pena governará o mundo... Uma palavra que cair do bico da pena daí a uma hora correrá o universo por uma rede imensa... falando por milhões de bocas, reproduzindo-se infinitamente como as folhas de uma grande árvore.”
(ALENCAR. José de, Diário do Rio de Janeiro, 27 de maio de 1855).

Como andei sem inspiração nos últimos tempos, resolvi atualizar o blog com uma "profecia" de José de Alencar. Que concluiu, exatamente, o que acontece hoje em dia e já há algum tempinho. Como agora, por exemplo.
Principalmente se trocarmos o "uma hora" por "alguns segundos".